Healthtech fundada por Vander Valente aposta em telemedicina, automação e atendimento médico humanizado para ampliar o acesso ao tratamento de uma doença crônica que atinge mais da metade da população brasileira.
A combinação entre inteligência artificial, telemedicina e equipes enxutas começa a redesenhar a forma como empresas de saúde são estruturadas no Brasil. Nesse novo cenário, a Althera, healthtech brasileira focada no tratamento da obesidade, surge como um exemplo de operação digital com baixo custo fixo, alta capacidade de execução e demanda reprimida relevante: em apenas três meses de operação, mais de 15 mil pessoas procuraram a plataforma em busca de informações e serviços relacionados ao tratamento.
Fundada por Vander Valente, CEO e sócio da companhia, a Althera nasceu a partir de uma conversa informal com o influenciador Renato Shippee sobre suplementos para emagrecimento. A discussão, no entanto, rapidamente evoluiu para um problema mais amplo: a dificuldade de adesão ao tratamento da obesidade no Brasil, seja pela falta de acesso a médicos, seja pela interrupção recorrente de processos terapêuticos.
“A ideia da Althera saiu dessa questão do suplemento e passou para uma questão médica real do tratamento de obesidade e do uso de tecnologia, que foi evoluindo. Vale ressaltar que a plataforma veio para endereçar um problema real de saúde pública”, afirma Valente.
Hoje, a empresa opera com três frentes principais: consultas médicas online, protocolos clínicos estruturados e entrega domiciliar de medicamentos prescritos por meio de farmácias parceiras. O objetivo é reduzir barreiras na jornada do paciente, especialmente em um país onde mais de 55% da população está acima do peso, segundo a ABESO, Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica.
O diferencial da Althera, segundo o fundador, está menos no discurso tecnológico e mais na forma como a tecnologia reorganiza a operação. A inteligência artificial é usada nos bastidores para acelerar desenvolvimento de produto, integrar sistemas, identificar gargalos na experiência do paciente e reduzir custos. Já a relação direta com o paciente permanece sob responsabilidade de médicos e equipe humana de atendimento.
“O médico sempre no centro do atendimento ao paciente. A gente até experimentou durante uma semana usar uma recepcionista IA para responder as pessoas, mas rapidamente mudamos de ideia, porque vimos que o atendimento tem que ser humano. As pessoas que chegam com dúvidas têm questões emocionais, sensíveis, inseguranças, e só um humano consegue atender isso”, diz.
Para Valente, o avanço das ferramentas de IA mudou a lógica de criação de startups. Em vez de grandes estruturas, equipes numerosas e rodadas iniciais de capital para transformar uma ideia em protótipo, empreendedores conseguem hoje validar produtos com menos recursos e maior velocidade.
“Ela não surgiu com o objetivo de ser enxuta, ela nasceu enxuta porque isso é possível hoje”, afirma. “A velocidade que a gente tem com IA também possibilita ter um time menor, só realmente os experts.”
A companhia segue, até o momento, em modelo bootstrap, sem investimento externo. A estratégia é crescer com eficiência operacional e reinvestimento, aproveitando a redução de custos trazida pela automação. Na avaliação do CEO, esse movimento também muda a relação entre startups e investidores.
“Antes, a gente precisava de algum tipo de investimento para tirar a ideia do PowerPoint e criar o protótipo. Hoje isso já não é preciso. É possível que o empreendedor faça uma boa parte do trabalho sem trazer captação externa. Ao mesmo tempo, do ponto de vista do investidor, é preciso muito menos recurso. Ele consegue escalar sem ter que trazer a captação”, afirma.
Apesar da estrutura enxuta, a Althera afirma manter governança clínica nos moldes de uma empresa médica tradicional. O responsável técnico da operação é o médico Juliano Custódio, que participa do desenvolvimento de protocolos e do compliance regulatório da plataforma. Segundo Valente, a eficiência tecnológica não reduz exigências clínicas, mas busca aumentar a segurança do processo.
“A governança clínica segue exatamente os mesmos padrões de uma empresa médica tradicional, elevando isso ao máximo grau de exigência. A eficiência entrou para aumentar ao máximo a segurança”, diz.
O volume de 15 mil interessados em três meses indica, segundo o fundador, uma demanda relevante por alternativas mais acessíveis, práticas e contínuas no tratamento da obesidade. A doença, reconhecida como crônica, exige acompanhamento recorrente, algo que muitos pacientes não conseguem manter dentro do modelo tradicional de consultas presenciais.
A tese da Althera é que o modelo pode ser replicado para outras doenças crônicas, desde que preserve três pilares: tecnologia para escalar, médicos no centro das decisões e foco na adesão do paciente. A empresa já planeja, no futuro, expandir sua atuação para outras frentes de tratamento recorrente.
Para Valente, o movimento não se limita à saúde. Ele avalia que a combinação de IA, automação e equipes menores deve impactar diferentes setores da economia brasileira nos próximos anos.
“Eu vejo um caminho muito positivo para as healthtechs nos próximos cinco anos. Não só para as healthtechs, mas para tudo o que é relacionado à tecnologia no Brasil. O que falta no país de verdade é recurso. E hoje esse recurso a gente consegue acelerar com as ferramentas de tecnologia”, afirma.
A ambição da Althera, segundo o CEO, é atuar em um ponto sensível do sistema de saúde brasileiro: a distância entre diagnóstico, acesso e continuidade do tratamento. “Nosso objetivo é realmente democratizar o acesso e a adesão para pacientes que têm problemas crônicos, que precisam de tratamento recorrente. Essa é a nossa missão”, conclui.












