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Distanciamento do olhar médico: das amebas à Organização Artificial

Negócios e Networking por Negócios e Networking
julho 9, 2026
em Geral
Os médicos Marco Orsini, Acary SB Oliveira, Luiza Travalloni e Carlos Henrique Melo Reis defendem o termo "Organização Artificial".
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Médicos defendem que o termo “Organização Artificial” representa melhor a tecnologia e alertam para os riscos de substituir o discernimento humano por decisões baseadas apenas em algoritmos.

“Cabeça de ameba” era uma expressão que um famoso professor de português, em Olímpia (SP), usava para descrever uma pessoa sem iniciativa, muito lerda ou com pouca inteligência, em alusão à forma simples e ao movimento lento deste ser, afirma Acary.

Como são organismos unicelulares, formados por apenas uma célula, as amebas não possuem sistema nervoso, cérebro ou qualquer tipo de tecido especializado. Apesar disso, conseguem sobreviver, se mover e buscar alimento por meio de respostas automáticas a estímulos químicos e físicos, em um processo chamado de quimiotaxia e tactismo, cita Orsini.

Entretanto, existe alguma relação entre a ameba, a nossa espécie e a inteligência?

No início da Terra não havia vida. Os primeiros organismos unicelulares procariontes surgiram nos oceanos há cerca de 3,8 bilhões de anos. As células com núcleo, conhecidas como eucariontes, apareceram aproximadamente 2 bilhões de anos atrás e deram origem às linhagens ancestrais das amebas, sinalizam Melo Reis e Acary Bulle.

É importante destacar que a nossa espécie não evoluiu da ameba. Embora compartilhem um ancestral comum, as duas seguiram caminhos evolutivos independentes. A jornada até o homem moderno envolve uma sucessão de marcos biológicos e geológicos específicos.

Os hominídeos tiveram origem no continente africano há aproximadamente 7 milhões de anos. A evolução desse grupo ocorreu por meio da ramificação de espécies, a partir de um ancestral comum entre o ser humano e os grandes primatas.

O ser humano moderno surgiu na África entre 200 mil e 300 mil anos atrás. Em 1758, o naturalista Carl Linnaeus atribuiu-lhe o nome científico Homo sapiens, combinando as palavras latinas Homo, que significa “homem” ou “humano”, e Sapiens, que significa “sábio” ou “que sabe”.

A escolha desse nome reflete a característica mais marcante da nossa espécie: a capacidade superior de raciocínio, abstração, linguagem complexa, pensamento, acúmulo de conhecimento, compreensão do mundo, autoconsciência e bom senso.

Favorecido por um organismo e um encéfalo diferenciados, que permitiram adaptação às constantes mudanças ambientais, o Homo sapiens tornou-se Homo sapiens sapiens. A comunicação diferenciada, a criação de ferramentas, inicialmente de pedra lascada, ossos e madeira, e o domínio do fogo foram inteligências reais e natas, afirma o médico Carlos Henrique Melo Reis. Segundo ele, a oralidade despertou a urgência da escrita, inicialmente registrada em argila, chegando aos tempos atuais por meio da identificação de algoritmos a partir de sinais encefálicos, culminando na chamada Inteligência Artificial.

A Inteligência Artificial é um conjunto de tecnologias que permite aos computadores executarem funções avançadas, como enxergar, compreender e traduzir idiomas falados e escritos, analisar dados, fazer recomendações e desempenhar inúmeras outras tarefas.

Mas qual é o perigo?

Os médicos Marco Orsini, Acary SB Oliveira, Carlos Henrique Melo Reis e Luiza Travalloni defendem uma reflexão sobre o próprio uso do termo. Segundo Marco Orsini e Acary SB Oliveira, “Inteligência é um termo muito biológico. Não podemos ofertar tamanho peso às máquinas que captam algoritmos, mas, quem sabe, às amebas. É interessante notar que, apesar de serem organismos de apenas uma célula, elas conseguem realizar todas as funções essenciais da vida”.

Eles destacam que as amebas se movem, alimentam-se, respondem ao ambiente e se reproduzem sem possuir tecidos ou órgãos. Para Marco Orsini e Melo Reis, a denominação mais adequada seria “Organização Artificial”, pois nela não existe futurologia, nem a capacidade de sorrir, chorar, amar, ter piedade, demonstrar mau caratismo, perdoar ou cultivar crenças. Também não existem deuses, tampouco as micropopulações de neurônios com suas particularidades intrínsecas e proteicas que apenas os seres humanos possuem.

Orsini compartilha ainda uma reflexão com Luiza Travalloni: “Infelizmente, na inteligência escondem-se ou sobressaem maldades cruas e perversas. Quando ouvimos que determinado comportamento foi um ato desumano, talvez a frase correta seja: não foi um ato desumano, foi um ato humano desprovido de humanidade”, sinalizam Orsini e Acary.

Em termos médicos, todos são categóricos ao afirmar que não se rendem ao termo Inteligência Artificial. Preferem a expressão “Organização Artificial”, justamente porque ela depende da qualidade dos dados inseridos pelos próprios médicos, que muitas vezes carregam vieses ou são alimentados por populações pouco representativas.

Marco Orsini e Acary SB Oliveira citam como exemplo os pacientes com doenças raras. “Os casos pouco frequentes podem ser mal interpretados ou injustiçados por letras e números. Na prática médica, a armadilha da facilidade e do algoritmo preocupa”, afirma Acary SB Oliveira.

Mas quais são os antídotos?

Discernimento e bom senso.

Com eles, a Organização Artificial jamais substituirá o julgamento clínico e todo o conjunto de fatores humanos presentes do início ao fim da vida.

Sem eles, estaremos delegando decisões às Organizações Artificiais, que poderão se comportar como as amebas devoradoras de cérebro (Naegleria fowleri), que entram no organismo exclusivamente pelo nariz ao aspirar água doce e morna contaminada, percorrem o nervo olfatório, atravessam a base do crânio e chegam ao cérebro, onde liberam enzimas destrutivas capazes de consumir o tecido neural.

Aí, o professor de português de Olímpia terá razão plena. Seremos cabeça de ameba e, pior ainda, só conseguiremos chegar em casa com IA, destaca Acary . Por fim, que os seres humanos abram o olho com a tal IA ou mesmo “Organização Artificial”, pois as amebas em breve serão favoritas na corrida da pura e humilde sobrevivência, afirmam Orsini e Luiza.

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