Regra aprovada por CBF e clubes em 21 de setembro vai obrigar as equipes a abrir espaço para mais atletas formados no país. A Empregol quer ser a ponte entre esses clubes e os jogadores sem contrato, que são a maioria dos profissionais brasileiros
Os clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro aprovaram, em 21 de setembro, a proposta da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de reduzir de forma gradual o número de estrangeiros relacionados por partida. O limite, hoje de nove atletas, cai para oito em 2027 e chega a cinco em 2030. A partir da próxima temporada, pelo menos 20 dos 50 inscritos de cada clube no Brasileirão também terão de ter até 23 anos. A proporção sobe aos poucos até 2030, quando metade da lista, 25 vagas, ficará reservada a atletas sub-23.
A mudança responde a um diagnóstico da própria entidade. Segundo estudo da CBF Academy apresentado aos clubes, os atletas sub-23 ficaram com 13,8% dos minutos disputados na Série A em 2026, enquanto a participação de estrangeiros com mais de 23 anos passou de 7,8% para 25% dos minutos entre 2020 e 2026. Neste ano, 172 atletas vindos do exterior foram utilizados no futebol brasileiro, 15 a mais que na temporada anterior. A idade média dos jogadores da primeira divisão, por sua vez, subiu de 27,3 anos em 2021 para 28,5 anos.
A regra tende a aumentar a procura por jogador formado no país, mas esbarra em uma característica estrutural do mercado: a maior parte dos atletas profissionais brasileiros não tem contrato ativo. Levantamento feito pela consultoria EY para a CBF e divulgado em 2019 contou cerca de 360 mil atletas registrados no país, somando profissionais e não profissionais. Desses, cerca de 88 mil eram profissionais, e apenas 11,7 mil tinham contrato ativo na data de corte do estudo.
Abaixo da elite, os contratos são curtos e de baixo valor. O Relatório de Transferências 2026 da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), produzido com a CBF Academy, mostra que os contratos domésticos firmados por clubes da Série A na primeira janela do ano têm duração média de 22 meses e remuneração média de R$ 1,7 milhão por ano. Excluída a elite, a média das demais divisões cai para cerca de dez meses e R$ 109 mil anuais.
É nesse intervalo entre um contrato e outro que a Empregol quer operar. Fundada por quatro sócios, três deles com carreira no futebol, a startup lança em outubro uma plataforma que conecta jogadores e jogadoras sem contrato ativo a clubes e agentes. O atleta monta um perfil com posição, dados físicos, estatísticas e vídeos com seus melhores lances. Antes de ficar visível, o perfil passa por checagem de identidade e de documentos, e o contato com agentes e clubes, também verificados, acontece pelo chat da plataforma.
O modelo é de assinatura dos dois lados. O atleta paga de R$ 24,90 a R$ 79,90 por mês, conforme o plano e o prazo de contratação. Clubes e agentes têm uma busca gratuita, com filtros básicos e perfis resumidos, e pagam de R$ 139,90 a R$ 199,90 por mês para acessar o currículo completo, a situação contratual verificada, filtros avançados e o chat com o atleta. O primeiro mês após o lançamento será gratuito, uma janela que a empresa quer usar para que atletas e contratantes façam o cadastro e conheçam a plataforma sem custo.
A outra metade da aposta é o desenvolvimento do atleta. No plano premium, ele pode contratar sessões com profissionais parceiros, de saúde mental a jurídico, financeiro e preparação física, a preço corporativo e com pagamento à parte da mensalidade. O jogador que assina com um clube pode continuar na plataforma, com o status de empregado aberto a propostas, e manter esse acesso. Como os contratos fora da elite duram menos de um ano, a empresa quer ser o ponto de partida da próxima negociação.
O desenho se aproxima do das empresas de recolocação profissional do mundo corporativo, com uma diferença relevante: no futebol, trocar de emprego faz parte da rotina da carreira. Um jogador das divisões de acesso pode passar por vários clubes em poucas temporadas, e cada transição reabre a mesma busca por visibilidade. Para a Empregol, isso faz do atleta um usuário recorrente, e não um cadastro que se perde depois da primeira contratação.
“O clube paga para encontrar mais rápido e com informação checada. O atleta paga para ser visto por contratantes verificados e para ter acesso a profissionais que, sozinho, ele pagaria bem mais caro”, diz Caio Vieira, cofundador e diretor comercial da Empregol.
Para Hygor Ribeiro, cofundador e CEO da empresa e jogador profissional, a nova regra da CBF deve acelerar essa demanda. “Com menos estrangeiros e mais vagas obrigatórias para atletas de até 23 anos, os clubes vão precisar ampliar o radar. Tem muito jogador pronto entre um contrato e outro, e a gente quer que ele seja encontrado”, afirma.
A redução do teto de estrangeiros foi desenhada em etapas justamente para diminuir o impacto sobre clubes que já têm contratos longos com jogadores de fora, o que dá às equipes quatro temporadas para ajustar a forma de montar elencos. A Empregol aposta que parte desse ajuste vai passar por ferramentas que levem aos clubes, com informação verificada, atletas que hoje ficam fora do radar.





